Fele ConoscoGaleria de FotosAgenda de EventosPráticasBibliotecaMistérios de EleusisA Fundação e o FundadorMagia Grega Página inicial O aprendizado

Mistérios de Elesis

(navegação rápida)

Mistérios Menores
Grandes Mistérios
Duplo Mistério
Morte e Ressurreição
Felicidade nos Ritos

 

 

 

 

 


Marlene Suano

A comunicação entre Deméter e Perséfone era a metáfora mítica da passagem da vida para a morte e a ressurreição. Os rituais que encenavam tal processo eram dos mais secretos da Antigüidade

O historiador Diodoro Siculo se refere à existência de rituais de "mistérios" já em Creta, local de origem do culto a Cibele, uma deusa anterior porém em muitos aspectos equivalente a Deméter. Nesse caso, as pesquisas arqueológicas são fundamentais, pois esses ritos exigem recursos espaciais específicos, como pequenas grutas ou cavernas, normalmente sob os templos.

No âmbito da mitologia grega, o "Hino a Deméter", atribuído a Homero, é o documento privilegiado para o entendimento da origem mítica desses rituais. Por meio dele ficamos sabendo que a deusa da agricultura se retirou do Olimpo após ter tido sua filha raptada. Ela vagou sem destino, irreconhecível aos mortais, à espera da volta de Perséfone. Enquanto isso, nenhuma semente brotava do chão, e a humanidade ficava a cada dia mais exposta à fome.

Um certo dia, Deméter chegou a Elêusis, cidade perto do mar, a poucos quilômetros de Atenas. Desanimada, com a aparência de uma velha, a deusa senta à beira de uma bica d'água e é encontrada pelas quatro filhas de Celeos, o rei local, que haviam ido buscar água para a casa do pai. Deméter alega se chamar Doso, e diz que fora trazida de Creta por piratas, tendo fugido quando o navio ancorara, vagando em seguida até ali. Apiedando-se da infeliz senhora, as moças, lideradas por Calídice, e sem saberem que se trata de uma deusa, convidam-na para entrar na cidade, onde certamente ela seria bem recebida.

As meninas, ao chegarem em casa, apresentam a infeliz senhora à rainha sua mãe, Metaneira, que tem ainda um filho pequeno Demofon, e necessita de alguém para cuidar dele. E assim Deméter, disfarçada começa a trabalhar como babá e nutriz do bebê.

Ela então decide retribuir a hospitalidade da família, transformando o pequeno Demofon em um deus. Para tanto, alimenta-o com ambrosia, o alimento divino, e à noite, sem que ninguém veja, ela o esconde sob as brasas da lareira, num ritual por ela desenvolvido. O menino começa a crescer a olhos vistos. Quando Metaneira se dá conta do que está ocorrendo, se assusta e reclama. Deméter, sentindo-se incompreendida e desejando castigar a ingratidão da rainha de Elêusis, pega a criança junto ao fogo e a joga no chão, aos pés de Metaneira. A deusa então se revela em seu esplendor divino e ordena que lhe seja construído um altar na cidade, onde ela mesma ensinaria seus ritos ao povo para que, cumprindo-os, reconquistassem seu favor.

Celeos e os homens do lugar imediatamente obedecem às instruções da deusa. Mas Deméter não cumpre a sua parte no trato. Torna a sua resistência passiva pela ausência de Perséfone, não permitindo que nenhum alimento nasça da terra enquanto não recuperá-la.

Quando finalmente consegue a filha de volta, mesmo que por apenas parte do ano, ela ensina a Diocles, Eumolpos e Celeos, os reis locais, como conduzir seus ritos e todos os seus mistérios.

Estavam assim fundados os Mistérios de Deméter em Elêusis, segundo a tradição homérica. Assim os caracteriza o "Hino de Deméter":


Mistérios poderosos que ninguém pode, de nenhuma maneira,
Transgredir ou procurar ver ou revelar, sob pena que os
Deuses lhes tirem a voz. Feliz o homem na terra que tiver
Visto tais mistérios, mas quem não for iniciado e neles não tiver
Parte (e vê-los), quando morto estará na escuridão e tristeza. (2.472)


O geógrafo grego Pausânias reporta outra tradição. Segundo ela, Deméter se escondera em uma caverna na Ática, onde fora descoberta por Pã, deus dos rebanhos, que revelara seu esconderijo a Zeus, que por sua vez envia as Moiras, personificações do destino, para convencê-la a aplacar sua ira pelo rapto da filha e se reintegrar ao convívio dos deuses.

Há ainda versões do mito pelas quais Deméter, ao desistir de tornar Demofon imortal, teria voltado sua proteção para o menino Triptolemos, outro príncipe de Elêusis, presenteando-o com um carro alado, para que ele disseminasse a agricultura entre os homens.


Mistérios Menores

Os ritos referentes aos chamados mistérios, envolviam os importantes momento de passagem na natureza e na vida humana. Essas mudanças poderiam estar expressas nos ciclos da natureza, as estações, ou em casamentos, nascimentos ou mortes, a mudança final. Deméter e Perséfone orquestravam tais passagens, sem dúvida aquelas que os gregos antigos mais respeitavam e temiam. Os rituais dos mistérios compreendiam duas fases bem distintas: os mistérios menores e os maiores, com os primeiros funcionando como uma preparação para os segundos.

Os mistérios menores eram ritualizados geralmente no mês de março, embora pudesse variar de data. Tais rituais se davam às margens do rio Ilissos. Como nesse mesmo local ocorriam os rituais de purificação pelos quais passavam os noivos de Elêusis antes do matrimônio, os estudiosos acreditam que os mistérios menores fossem em honra a Perséfone, em memória à sua segunda descida ao Hades, para tornar-se esposa legítima do deus dos mortos e, ela própria, rainha do lugar. Outra ligação entre esses rituais e Perséfone se dá no momento em que grãos são enterrados, representando a descida da jovem ao Hades, ou ainda quando se comiam, ritualmente, grãos de romã, num gesto que estabelecia seu vínculo eterno com o marido, pois foi este o alimento ingerido por Perséfone no reino dos mortos e que a obrigou a voltar regularmente para as profundezas.

Seria quase impossível dissociar os ritos de fertilidade do solo daqueles de procriação dos animais e dos homens. Nascer e morrer era o caminho natural da vida, como tão bem disse o teatrólogo Eurípedes, no séc. V a.C., em sua peça Hipsile:


Enterram-se crianças, ganham-se novas crianças,
Morre-se; e isto os homens sofrem pesadamente, levando
A terra à terra. Mas é necessário colher a vida como a espiga
Que dá frutos, uma dá, a outra não.


O nascimento era por excelência um ritual de passagem e de fertilidade e os ritos para celebrá-lo eram bastante específicos. Não por acaso, Deméter, ao tomar abrigo entre os humanos, dez o papel de nutriz de um recém-nascido, como vimos acima. O "Hino a Deméter" remonta a uma prática corrente: para consagrar a aceitação da criança na família, ela era carregada ao redor do fogo doméstico e depositada no chão. Isso se dava na primeira semana de seu nascimento, entre o quinto e o sétimo dia. A mãe, então, já teria sido purificada com água ou com sangue de um leitão, animal símbolo da fertilidade que era sacrifício em oferenda à deusa.

Voltar ao topo da página

Grandes Mistérios

No curso dos grandes mistérios de Elêusis, cujos rituais eram cumpridos em meados do chamado "Boedromion", isto é, algum ponto entre agosto-setembro, as etapas eram precisas e bem distintas, podendo durar, na totalidade, de oito a dez dias.

O passo preparatório consistia na vinda de duas sacerdotisas de Elêusis até Atenas, onde eram recebidas pelas sacerdotisas locais. Elas traziam "cistes", um tipo de cesta com os objetos sagrados de Deméter, amarradas por fitas.

O passo seguinte era o "agyrmos", isto é, a "colheita". Os objetos sagrados eram levados ao Eleusinion, o templo de Deméter na ágora de Atenas. Os psotulantes à iniciação, já iniciados nos mistérios menores, passavam esse dia em retiro espiritual, sob a orientação de seu guia religioso, chamado de "mystagogo", ou "o que ensina os mistérios".

No terceiro dia, aos gritos de "Holade Mystai!", "Ao Mar Iniciados!", os futuros novos membros da religião eram levados ao mar, para serem purificados pela água salgada. Mas o costume variou no tempo, com a purificação podendo ser feita com o sangue de um leitão. A seguir, acontecia o "Hiereia Devro", o momento do grande sacrifício à deusa. Fazia-se então uma pausa com os postulantes e iniciados recolhidos em jejum, para a realização da Epidauria ou Asclépia, em honra ao deus da medicina, Asclépio. Em meio a libações com vinho, pedia-se a proteção de Asclépio e de Dioniso, dois deuses que, cada um a seu modo, também haviam descido ao Hades para depois retornar ao mundo terreno. Enquanto isso, os sacerdotes preparavam a beberagem sagada o "kykcon", feita a base de cevada fermentada.

O quinto dia é o da Pompe, grande marcha de volta a Elêusis. Os oficiais sagrados levam os postulantes à iniciação e os iniciados, ou mystai, do templo de Iacos até Elêusis. Iacos era o mediador entre as deusas Deméter e Perséfone, sendo identificado por alguns estudiosos como Dioniso ou Baco. A procissão tem muita música e canto. Na parada à beira do rio Cefisos, os sacerdotes expõem os defeitos dos postulantes, de modo que ficassem para trás e eles começassem nova vida, inteiramente virtuosos. A procissão chega a Elêusis à noite, carregando tochas acesas, e os postulantes dividem com as deusas um prato de cereais.

A iniciação propriamente dita começa com a "syntema", quando o postulante jejua e finalmente bebe o "kycon" que, segundo o hino homérico era feito à base de cevada fermentada e menta. A seguir, no recinto do Telesterion (um enorme salão, capaz de abrigar centenas de pessoas, obra do arquiteto Ictinos, o mesmo que construíra o Parthenon de Atenas), o hierofante ou sumo sacerdote, realiza o ritual do "hierogamos", ou matrimônio sagrado, e anuncia o nascimento de Iaco, a criança divina, representada por uma espiga. Em seguida, vinha a epopéia, o fecho da iniciação, já exclusiva para os iniciados, quando se ouviam os gritos de ye (chuva) e kye (nascimento).

A partir daí, os postulantes são já iniciados de pleno direito e participam das Noites dos Mistérios, que reproduzem a trajetória de Deméter-Perséfone, da tristeza da perda à alegria do reencontro, da esperança de renovação e de vida. Finalmente ocorre a celebração chamada "plemokhai", com vasos sagrados repletos de água, representando o ventre sagrado de Deméter. Enquanto eram comidas romãs e maçãs, e entoados cantos de Hye, kye, isto é "flua e conceba", celebrava-se a morte como uma pausa entre as vidas do iniciado.

Voltar ao topo da página


Duplo Mistério

Encerrava-se assim, depois de oito ou até mesmo dez dias, a Eleusina ta Megala, ou os "Grandes Mistérios Eleusinos". Dois dos momentos mais secretos desses rituais, e sobre os quais os iniciados não podiam falar, eram a apresentação das relíquias de Deméter, que tinha lugar no já mencionado Telesterion, e a hora em que as sacerdotisas revelavam as visões que haviam tido na noite de preparação para os ritos.

Há estudos recentes sugerindo que os mistérios eram propiciados pela ingestão de componentes alucinógenos, produzidos por um fungo da cevada, o ergot, que contém alcalóides psicoativos do LSA, o amido de ácido lisérgico, precursores dos alucinógenos LSD e Ergonovine. Os especialistas chegaram a fazer experiências sintetizando o ácido a partir da cevada contaminada com o ergot, mas acharam o resultado fraco...

Voltar ao topo da página

Morte e Ressureição

A importância dos Mistérios de Elêusis é evidente durante toda a Antigüidade. O geógrafo Pausânias, por exemplo, descrevia Elêusis como o local por onde Hades teria se retirado para o reino dos mortos carregando Perséfone. O grande santuário de Deméter em Elêusis possui, de fato, todos os requisitos para tal "travessia". Há uma gruta sob o templo e uma passagem subterrânea perto de sua entrada. Pensam os especialistas que esses recursos eram utilizados nos rituais de repetição da ida de Perséfone ao mundo subterrâneo e, depois, naqueles que encenavam sua volta. Mas haviam outros santuários de Deméter que realizavam os rituais dos mistérios, entre eles Megalópolis e Acacesion, na Arcádia, Andania, na Messênia, e Lerna, na Argólida. Não obstante, nenhum deles alcançou o poder e a notoriedade dos ritos efetuados em Elêusis.

Sabemos muito pouco da participação da outra filha de Deméter, Despoema, nos mistérios eleusinos. A etapa na qual ela tinha alguma função era tão secreta, com seu verdadeiro nome só podendo ser conhecido pelos iniciados, que dela nada sabemos além das imagens em que a vemos, ao lado da mãe, carregando uma "ciste" misteriosamente fechada. Também pouco sabemos de Iacos, o líder dos mistérios. Nas representações, ele aparece ao lado de Deméter, segurando uma tocha. Acredita-se que era quem mostrava o caminho que ela deveria seguir no mundo subterrâneo, daí a identificação com Dioniso, outro freqüentador das profundezas.

A capacidade de ver e entender o que normalmente não se vê e entende é parte importante dos Mistérios de Elêusis. No "Hino a Deméter", logo depois de, enraivecida, ela jogar o bebê Demofon no chão e com isso negar-lhe a vida eterna, Deméter diz que os humanos eram "sem visão, estúpidos, ignorantes da parte do que lhes toca bem e do mal", e que ela lhes ensinaria seus ritos, em clara alusão à distinção entre iniciados e não iniciados.

A "iniciação" das religiões antigas do Mediterrâneo, aliás, chegou até nós, por exemplo no rito católico da primeira comunhão, para citar apenas o que é mais nosso conhecido. Quase nada, porém, sabemos do ritual dos mistérios em si, além de que havia um fogo purificador, sacrifício de porcos e o uso de seu sangue. A vida de Deméter e Perséfone sem dúvida era representada, com os fiéis tomando parte na encenação, que tinha o nome de "dromena". Esta daria concretude à descida ao mundo subterrâneo e ao matrimônio sagrado.

O caminho dos "muesis", literalmente aqueles capazes de "ver de olhos fechados", começava pelos mystai, "aquele que desconhece o que lhe será revelado" (de onde, aliás, provém a palavra "mistérios") e termina com a epopéia, que significa "aqueles que vêem", ou seja, os que foram iniciados nos mistérios. Os iniciados, portanto, saíam da condição de ignorância e cegueira imputadas por Deméter à humanidade. Assim, mais próximos da deusa, de sua aceitação, garantiam – se não a imortalidade – pelo menos as condições de bem-aventurança após a morte. Essa parte final dos mistérios era chamada "legomena" e referia-se às instruções que os iniciados recebiam sobre como se comportar quando chegassem ao mundo dos mortos. Há estudiosos, contudo, que acreditam tratar-se de instruções sobre os ritos em si, sobre aquilo que os iniciados estariam vendo.

Voltar ao topo da página

Felicidade nos Ritos

Os Mistérios de Elêusis e o culto a Deméter-Perséfone eram práticas de alegria e felicidade, de celebração da existência e de esperança em relação à vida pós-morte. Assim como a natureza se entristecia, morria e depois revivia, no eterno ritual das estações, o ser humano, praticando os rituais corretos, cumpriria o mesmo ciclo. Que o ritual dos mistérios era apreciado e que trazia prazer e consolação aos iniciados é bem sabido pela leitura dos textos antigos. Segundo Plutarco (sécs. I-II a.C.), o dramaturgo Sófocles (séc. V a.C.) teria afirmado: "Três vezes benditos são os mortais que viram esses ritos e que entram no Hades: só assim para eles há vida, para todos os demais, só tristeza".

Tendo em vista a ligação que fazem entre vida e morte, há muitos estudos que relacionam esses rituais de mistérios ao cristianismo primitivo. O ressurgimento do mundo dos mortos, a subida aos céus, o sangue do cordeiro de Deus, que purifica, mas já tomado num sentido metafórico, sem a necessidade de realmente sacrificar o animal, enfim, toda a questão da ressurreição, de grande complexidade, vem merecendo sérias discussões.

Mas o espaço sagrado por excelência do culto à deusa da agricultura não teve vida fácil após o término do período clássico grego. Os bárbaros Sármatas, vindos do mar Negro, saquearam e destruíram Elêusis no ano 170 d.C. É bem verdade que, logo a seguir, o imperador romano Marco Aurélio reconstruiu o templo e, em agradecimento, foi-lhe permitido entrar no recinto secreto, o "anactoron". Mas no final do século IV d.C., em 396, o imperador Teodósio I fechou os santuários, ao reforçar o cristianismo como religião oficial do império.


Voltar ao topo da página